Da cultura à política: as lutas identitárias nas redes digitais

Por Ester Pinheiro. Francisco Bosco é ensaísta  e tem doutorado em Teoria Literária pela UFRJ. Autor de “Orfeu de Bicicleta: um pai no século XXI” e “Alta ajuda”, lançou, no final de 2017, “A vítima tem sempre razão?”. A obra analisa a emergência do que o autor considera um “novo espaço público brasileiro”, marcado pela passagem da cultura à política. Esse espaço teria se formado a partir de três movimentos: os acontecimentos de junho de 2013, o colapso do lulismo e ascensão das redes sociais digitais.

Bosco foi um dos convidados do Seminário de Crítica da Mídia, em abril deste ano, em que debateu com professores e alunos, principalmente, sobre a luta por reconhecimento e contra o poder. Nesta entrevista, ele nos fala sobre o que o levou a escrever “A vítima tem sempre razão?” e  o modo como o “culturalismo conservador” serve ao entretenimento. “A autoimagem cordial foi capaz de realizar enormes feitos culturais, que nunca puderam se traduzir em uma transformação social do país, segundo o mesmo sentido: democratizante, desierarquizante, igualitária”.  Bosco discute, ainda, o processo de politização de nossa sociedade e a noção de “lugar de fala”. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Que razões o levaram a escrever “A vítima tem sempre razão?”

Na medida em que as lutas identitárias se consolidavam e se expandiam, sobretudo nas redes sociais, eu percebia que havia, de um lado, pessoas conservadoras, que, sem se dar o trabalho de conhecer melhor as questões em jogo, tendiam a desqualificar e até ridicularizar os diagnósticos e pleitos dos grupos subalternizados; e, de outro, bolhas militantes que defendiam premissas discutíveis e métodos, no meu entender, inaceitáveis, com tendência a comportamentos autoritários e perspectivas esquemáticas e maniqueístas da experiência social. Escrevi o livro com o objetivo de mostrar a uns e outros que suas posições deveriam ser bastante transformadas.

Creio que há uma permanência do culturalismo conservador no entretenimento. Essa perspectiva presta muito melhor à própria definição de entretenimento, que é não colocar as pessoas e as relações sociais em questão.

A chave sociológica de interpretação de um Brasil cordial e harmonicamente miscigenado escamoteou nossas tensões sociais. Hoje, esse aspecto, que Jessé Souza chama de “culturalismo conservador”, parece estar sendo cada vez mais problematizado. Na sua opinião, a chamada mídia dominante ou tradicional também começa a questionar essa perspectiva culturalista ou ainda a possui como forma de entendimento e de narrar o país?  

Não sei se há uma posição convergente da mídia tradicional sobre a questão do “culturalismo conservador”. Creio que há uma permanência dessa perspectiva no entretenimento, pois ela se presta muito melhor à própria definição de entretenimento, que é não colocar as pessoas e as relações sociais em questão. Agora, um ponto a ser observado é o seguinte. A mídia tradicional, com seu interesse político mais conservador, pode abraçar a perspectiva identitária, não cordial, como uma espécie de válvula de escape cultural, isto é, como um mecanismo que acaba operando como álibi para posicionamentos conservadores na dimensão sóciopolítica. Isso não é responsabilidade das lutas identitárias e não diminui em nada a importância e legitimidade dessas. Mas é um aspecto a se levar em conta

No seu livro, a linguagem é entendida como instrumento não neutro, portador de determinações sociais. O que mudou e tem mudado na sociedade brasileira para que termos como “mulato” e “mulata” e determinadas letras de marchinhas de carnaval sejam hoje confrontadas?

Resumidamente, minha hipótese é que foi se formando uma consciência progressiva, por parte de alguns setores, de que a autoimagem cordial – baseada nos valores do encontro, da mistura, da festa – foi capaz de realizar enormes feitos culturais, mas esses feitos nunca puderam se traduzir em uma transformação social do país, segundo o mesmo sentido: democratizante, desierarquizante, igualitária. Com isso uma outra autoimagem foi se formando e se impondo. Uma autoimagem associada ao confronto, à explicitação de todas as tensões sociais. Chamo esse processo – que levou uns 60, 70 anos – de passagem da cultura à política.

A mídia tradicional, com seu interesse político mais conservador, pode abraçar a perspectiva identitária, não cordial, como uma espécie de válvula de escape cultural, isto é, como um mecanismo que acaba operando como álibi para posicionamentos conservadores na dimensão sociopolítica.

Seu ensaio defende a ideia de que é legitimo os movimentos identitários lutarem no âmbito estrutural para o estabelecimento de um sistema mais justo e igualitário. Mas ele recusa as ações voltadas contra indivíduos. De que modo, os movimentos podem, nas redes digitais, contribuir para a denúncia estrutural das opressões, sem “fulanizar” a questão?

Essa é precisamente a pergunta que considero que os movimentos deveriam se colocar. Nem sou categoricamente contra a denúncia de indivíduos, mas, antes de se chegar aí, muita coisa deveria ser pensada de forma mais profunda e honesta: algumas premissas do feminismo dominante, que resultam, me parece, de uma leitura apressada das ideias das radfems [feministas radicais] americanas dos anos 1980; uma consciência das dinâmicas de gozo produzidas pelos laços de identificação grupal, que tendem a fazer com que os membros do grupo não admitam dúvidas e problematizações, porque isso implicaria perda de gozo (o gozo vem das certezas reafirmadas); uma reflexão sobre os princípios da “ética utilitária” e da “ética categórica”; entre outros.

A noção de lugar de fala é bastante utilizada hoje por movimentos identitários tanto nas redes sociais como no meio acadêmico. Como você entende essa noção? Qual seria o seu lugar de fala no livro?

O conceito de “lugar de fala” é pertinente e necessário em uma de suas faces: aquela para a qual a vivência concreta dá acesso a dimensões dos problemas sociais que a abordagem meramente teórica não é capaz de captar. É preciso, portanto, abrir radicalmente o espaço público para as vozes que vêm desses lugares de fala. Já em sua outra face, a noção é impertinente. Ao evocar o lugar de fala para desqualificar a participação no espaço público de sujeitos de fora dos grupos identitários, o que ocorre é simplesmente a anulação da vida moral da sociedade. O pressuposto é de que cada sujeito só pode defender os interesses de sua estrutura de origem. Não existe senso moral, não existe solidariedade. É a versão identitária da noção de “esquerda caviar”. O meu lugar de fala é o de alguém que, como qualquer outra pessoa, está submetido à tensão entre os interesses e limitações de sua posição estrutural (homem, branco, hétero etc.), e os valores determinados pelo seu senso moral, que transcendem esses marcadores.

 

Ester Pinheiro é aluna do 4º. período de jornalismo e bolsista CNPq de iniciação científica.

 

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