Como a cultura das playlists interfere no processo de produção musical

Por Rafael Mafra. Embaralhar músicas de artistas diferentes em uma playlist não é algo novo. O rádio faz isso desde seus primórdios, alternando uma música do Led Zeppelin com uma do Queen, uma do Michael Jackson com uma da Madonna, uma do Baco Exu do Blues com uma do Djonga, e assim por diante. Um Frankestein diferente a cada era musical. Contudo, a partir de um menor consumo do rádio por parte da juventude, são as plataformas de música por streaming – tecnologia multimídia através da transferência de dados pela Internet – que se tornam o meio privilegiado de consumo de músicas por lista.

A diferença, logo de cara, é a interatividade. Não apenas receptor, o consumidor também torna-se locutor ao criar suas próprias playlists. Inicialmente, uma iniciativa de democratização que já vinha há tempos com as fitas cassetes e CD’s virgens por meio da pirataria, e que hoje é simplificada e potencializada ao toque no celular, de forma legal e institucional. Tal comportamento, porém, está longe de simplesmente substituir a função do rádio. A forma de se consumir o produto também está influenciando as formas de se produzi-lo, e vice-versa.

Consequente à popularização da ferramenta de playlists nas plataformas de streaming (Spotify, Deezer, Apple Music etc.), pode-se perceber a diminuição gradual da compra de álbuns/discos. No período pré-internet, era comum que artistas veiculassem músicas com maior apelo popular em programas de rádio como publicidade de sua coletânea, ou seja, o rádio em favor do álbum (o produto final). A tendência da década, por sua vez, parece ser a produção do álbum em favor das playlists.

De acordo com a Billboard, o álbum DAMN., de Kendrick Lamar, teve dois terços da venda em função da compra de faixas avulsas e streaming. O mesmo projeto em que sua versão deluxe – edição estendida da obra – é, sem tirar nem pôr, o mesmo disco com a ordem das faixas musicais invertidas. Isso nos conta algumas coisas sobre a intenção do produto final: escute como quiser, na ordem que quiser e no contexto que quiser. O artista contemporâneo parece não se importar tanto com o álbum musical como instrumento narrativo ou conceitual.

Essa contramão estratégica da produção musical, embora polêmica para os entusiastas da “essência” romântica da música, pode ser considerada uma via de mão dupla em determinados casos. Mesmo que você não conheça por completo o último álbum de um músico, suas músicas serão misturadas com a de artistas que você já tem familiaridade em suas playlists. As playlists institucionalizadas – aquelas produzidas pelos empregados da empresa de streaming ou pelos algoritmos utilizados por essa empresa – aumentam a chance de que você conheça um novo artista, baseado nas semelhanças deste com seu hábito de consumo. Assim, o conflito está longe de ser protagonizado por heróis e vilões. Provavelmente não ouviremos o trabalho do artista no contexto de sua produção e com sua respectiva intencionalidade simbólica. Esse trabalho, porém, será ressignificado ao lado de projetos que nunca teríamos contato caso não tivéssemos o hábito de montar, procurar e compartilhar playlists.

No entanto, a indústria musical, capitalista por excelência, nos obriga a refletir sobre o que acontece na maioria dos casos. O rádio nunca foi tão democrático assim, e as playlists não são diferentes. A falsa sensação de acessibilidade ao novo causada pela internet é, na prática, semelhante ao vigente que prescinde sua existência. Se você ouviu em uma playlist, é porque alguém quis que você ouvisse. E quando se diz alguém, me refiro às gravadoras. Já o quis, por sua vez, implica na posse de capital para investir. O papel das gravadoras no século XX, de colocar seus artistas nos programas de rádio, só mudou na aparência, uma vez que, segundo Edward Newett, engenheiro de software do Spotify para uma matéria da Wired UK, o algoritmo utiliza da ferramenta de popularidade para que os artistas tenham espaço nas listas. Quem paga, aparece.

Além disso, estas plataformas de streaming estão sempre na grande mídia com o envolvimento em polêmicas relacionadas ao favoritismo de certo artistas. A controvérsia mais recente data do ano passado, quando o rapper Drake estampou todas as capas de playlists do Spotify por uma semana, resultando na indignação dos ouvintes e de artistas de grande porte como Nicki Minaj. Segundo Michael Bhaskar, em estudo publicado no livro The Digital Critic: Literary Culture Online, 20% das faixas na plataforma nunca foram reproduzidas, enquanto 0,1% dominam a curadoria. “Esses serviços alavancaram uma economia diversa dos modelos de consumo e de acesso musical antecessores: os serviços fazem dos usuários inquilinos mais do que proprietários de produtos físicos” conta o pesquisador Rodrigo Fonseca em entrevista para o Cento de Crítica da Mídia (CCM) em 2018.

Drake também se torna uma figura importante na discussão sobre a influência desse novo hábito de consumo na criação artística. Em 2017, o cantor canadense lançou o álbum More Life: A Playlist By October Firm, explicitando sua intencionalidade em usar a obra para a seleção de suas faixas, que nesse projeto não possuem coesão entre si, tanto em sonoridade quanto em conteúdo, para se encaixarem em listas de diversas funções. Uma música para se escutar na praia, outra para festas, outra para casais. Enfim, uma estratégia de versatilidade de tópicos para ocupar ao máximo as páginas iniciais das plataformas.

Fossem vinis, disquetes ou CD’s, o veículo de consumo nunca influenciou tanto o processo criativo como playlists em plataformas de streaming influenciam hoje. A preocupação de venda de discos, para artistas e gravadoras no passado, era suprimida por um ou dois grandes sucessos populares. Algo que sintetizava e convidava o público para a obra completa. Atualmente, ao invés do foco em um público alvo, a estratégia está em difundir retalhos da obra do artista para inúmeros grupos, ampliando o mercado consumidor. Ao vender músicas independentes umas das outras nestas compilações, artistas já estabelecidos mantêm seu oligopólio na ocupação desse novo espaço de consumo, reiterando a impossibilidade da adoção dessa mesma estratégia por artistas independentes.

Já o álbum/disco, como conceito, também perde o interesse do público casual e já inserido na cultura da Internet. A partir do momento que os maiores nomes na mídia são vendidos sob o rótulo das playlists, só o tempo dirá se a nova geração implantará essa nova maneira de fazer música em suas aspirações. No entanto, o ouvinte não é, em sua inteireza, o principal termômetro de um produtor. Seja na conservação da estrutura tradicional da música, ou na experimentação extrema dela, muitos artistas não abrirão mão de sua excentricidade e intenção como músico para se encaixar nessa ascendente tendência. Afinal, a cultura da mídia é um terreno de disputa (Kellner, 2001).

Recorte da fotografia usada na capa do álbum Endtroducing… do DJ Shadow. Foto por Brain Cross

Rafael Mafra é monitor do Centro de Crítica da Mídia e graduando em Jornalismo pela PUC Minas.

Referências

KELLNER, Douglas. A cultura da mídia: Estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. Bauru: EDUSC, 2001. 452p.

BHASKAR, Michael. The Digital Critic: Literary Culture Online. OR Books, 2017. 204p.

https://www.billboard.com/articles/columns/chart-beat/8390291/kendrick-lamar-damn-pulitzer-prize-sales-streaming-gain

https://www.wired.co.uk/article/tastemakers-spotify-edward-newett

http://ccm.fca.pucminas.br/os-servicos-de-streaming-e-a-experiencia-musical-contemporanea/

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