A descoberta de uma anatomia

Por Fábio de Carvalho

Me chame pelo seu nome, que eu te chamarei pelo meu – troca de afetividades, transcorporalidade. Eu em você, você em mim.

O descobrimento de uma dada sexualidade é processual, não há possibilidade instantânea para tal conhecimento. É necessário tocar e ser tocado, sentir e fazer sentir. Esse processo não começa necessariamente pelos rituais programados de uma sociedade heteronormativa, mas pela singularidade de cada experiência. É através da captura de certa singularidade que “Me chame pelo seu nome” (2017), dirigido por Luca Guadagnino, revela sua pertinência ao espectador. A construção fílmica dos sentidos enreda o olhar atento numa cumplicidade localizada num espaço seguro, de receptividade e aceitação. É uma celebração da descoberta com o outro de um lugar comum onde o afeto existe. “Oliver!”, “Elio!”, expressões de assentamento: ele está em mim, eu estou nele.

O filme se insere numa geografia de onírica verossimilhança, a mimese nostálgica do fim de um século. Esperamos encontrar nesse desejo pelo passado uma abertura para melhor compreender o presente, ou tão somente dar-lhe corpo. Os anos 80 são, arrisco, uma heterotopia midiática, espaço de contradição, que adquire filmicamente uma dada textura – uma dada territorialidade dos sentidos – que só é possível no século XXI. São as imagens saturadas, o figurino, os cortes de cabelo, as músicas populares, que guiam o olhar do espectador na fabulação de uma época. Os anos oitenta jamais poderiam filmar a si mesmos da forma como Me chame pelo seu nome faz, valorizando uma identidade cultural mediada pelo olhar da contemporaneidade. A obra fisga um público interessado nessa reprodução do passado – recorrência nas produções pop atuais – e nos localiza na Itália, país exaustivamente idealizado pelas lentes do cinema norte americano em sua beleza idílica. A mise-en-scène está posta, espaço onde a potência da artificialidade encenada das imagens em questão vai se fazer.

Trata-se antes de tudo de um convite a uma erótica da arte – para tangenciarmos Sontag – que não torna a experiência do filme derivativa. É sensorial, e nesse sentido propositiva de uma relação com o espectador pautada pelo preenchimento de um espaço sempre sugerido pela cumplicidade da câmera. A relação de Elio e Oliver foi dos meus sentidos também, inclusive, é só através deles que ela se tornou tão potente: magia pagã cinematográfica. O corpo sexual, mais vezes o masculino, está imageticamente conectado com uma questão das esculturas enquanto arquitetura dos corpos. A trama passeia seus personagens por sítios arqueológicos, museus. Espaços da memória, onde corpos esculpidos nos dizem da descoberta da anatomia humana, do tensionamento erótico, do movimento petrificado. O cinema em Me chame pelo seu nome se presta à mesma descoberta. A história que perpassa todas as civilizações: a história do afeto.

Não se trata de um exercício pornográfico, mas de uma cooperação entre olhar realizador e olhar espectador, olhares múltiplo-sensitivos, que cheiram e tocam. Defendo aqui que essa inserção não provém tão somente de um espectador inocentemente situado – que não deixa de ser mola propulsora de uma produção que almeja a identificação cultural/ideológica alinhada com certa lógica capitalística de apreciação e compreensão do presente – mas de um desejo legítimo de liberação sensorial ao qual a obra se agarra. Nesse sentido, ela desenha um belo caminho do possível, onde a fetichização da relação dos personagens é combatida pelo exercício do extracampo como espaço do desejo. Em dado momento, um travelling da câmera na escuridão do quarto de Oliver e Elio direciona o olhar do espectador para a janela externa. O movimento é belo, pois ao diretamente abordar a “pulsão escópica” do humano – como o colocaria Comolli – a obra, como vai fazer em várias outras sequências, nos priva da visão explicita da troca de afetos dos personagens. Essa demarcação dos limites do quadro convida à invenção, a erotização, ao mesmo tempo em que protege o filme de uma dimensão puramente obsessiva em revelar, mostrar, explicitar. O que acontece no extracampo é dos personagens, mas também pode ser nosso se nos pusermos a criar.

Me chame pelo seu nome reconhece a delicadeza que seu tema necessita, e trabalha aquilo que vemos e aquilo que desejamos ver direcionando à experiência sensitiva da potência do menos dito, menos visto em determinadas dimensões, e valorizando a exibição de outras. Se inscreve na obra um interessante tensionamento que desponta em inúmeras produções contemporâneas, onde desejamos ver compulsivamente, mas tememos banalizar aquilo que nos é mostrado. O filme se agarra a um presente-passado nostálgico, mas, não sejamos afobados, ele não está à deriva. Nem tudo em Me chame pelo seu nome cabe aos olhos famintos da selvageria capitalística. O amor ainda batalha por sua dignidade.

Referências Bibliográficas

Susan Sontag – Contra a interpretação

Jean Louis Comolli em Pensar o Cinema – Imagem, Ética e Filosofia.

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